Escudo do E. C. Cruzeiro de Porto Alegre
Ao longo de todo esse ano de 2013, vários clubes brasileiros completaram ou ainda completarão 100 anos de existência. Nesse mês de julho, o aniversariante que chega ao centenário é o Cruzeiro. Não o mais famoso, o mineiro da cidade de Belo Horizonte, mas um mais antigo, que mesmo sendo mais desconhecido, não deve ser considerado menos glorioso. Trata-se do Cruzeiro de Porto Alegre, que foi fundado em 14 de julho de 1913.
Fundação
O clube surgiu da iniciativa de 18 jovens que, numa noite fria de inverno portoalegrense, reuniram-se no prédio do antigo Cine Ópera para fundar um clube de futebol, esporte que havia chegado há pouco tempo na cidade, mas que já tinha um grande apelo entre os mais novos. Dos dezoito fundadores, cinco tinham ligações com Sport Clube Internacional. Na verdade, tratava-se de um grupo de torcedores, que estavam descontentes com a condução do time Colorado. Insatisfeitos, juntaram-se a outros jovens para fundar seu próprio clube de futebol.
A principio, o novo clube seria batizado com o nome de 14 de julho, referencia ao dia de sua fundação, mas um dos seus fundadores sugeriu que fosse chamado de Cruzeiro, em alusão a constelação Cruzeiro do Sul. Esse nome, que tem como símbolo as cinco estrelas da constelação, teria sido sugerido por conta da ligação que os cinco integrantes fundadores tinham com o Internacional. Diferente de alguns outros clubes, o Cruzeiro tem uma origem mais elitista. Desde a sua fundação, esteve ligado aos intelectuais, a pessoas de esquerda e a estudantes.
Os clássicos com o Inter e o Grêmio e os títulos citadino e estadual
Durante décadas, o Cruzeiro permaneceu como terceira força do futebol gaúcho, rivalizando tanto com o Grêmio quanto com o Internacional, clubes mais antigos, fundados, respectivamente, em 1903 e 1909. Jogando contra os seus rivais, protagonizava o Gre-Cruz e o Inter-Cruz, jogos que, junto com o famoso Gre-Nal, estavam entre os clássicos da capital gaúcha.
Estádio da Montanha, 1959 - Clássico Inter-Cruz. Goleiro Irno sai do
gol para interceptar cruzamento. O jogo terminou empato por 1 x 1.
Dentre os títulos do Estrelado (nome carinhoso dado pela torcida), os mais importantes foram o campeonato gaúcho (1929) e o tricampeonato portoalegrense (1918, 1921 e 1929), conquistados por um time formado basicamente por estudantes universitários e alunos da Escola Militar de Porto Alegre. Até 1917, o Campeonato Citadino ou Portoalegrense era a única competição oficial disputada na capital gaúcha. O campeonato estadual começou a ser disputado apenas em 1919, por iniciativa da recém criada Federação Rio-Grandense de Desportos.
Nessa época, o Campeonato Gaúcho era disputado por regiões. Somente o campeão da cidade de Porto Alegre e os clubes representantes de outras regiões do estado podiam disputar o estadual. Essa fórmula de disputa durou até 1960, no ano seguinte, a competição passou a ser disputada pelos principais times da capital e do interior. Isso valoriza ainda mais os títulos conquistados pela equipe cruzeirista. Numa época em que não existiam competições nacionais, o campeonato da capital e o estadual tinha um peso e uma importância muito grande.
O Estádio da Montanha
Em 1941, o Estrelado da capital gaúcha inaugurou o Estádio da Montanha, um dos mais completos e modernos do país. O primeiro estádio do clube havia sido a Vila Cruzeira, onde jogou até 1920. Em seguida, mudou-se para o Caminho do Meio, uma nova casa, onde permaneceu mandando seus jogos por mais de 18 anos.
Na inauguração do novo estádio, no dia 6 de março de 1941, o Cruzeiro enfrentou o São Paulo em uma partida amistosa, vencida pelo alvi-azul por 1 x 0, gol de Gervásio, que assinalou o primeiro gol da Colina Melancólica, nome pelo qual também ficou conhecido o campo do Estrelado. O estádio foi o primeiro do Rio Grande do Sul com túnel de acesso do vestiário para o gramado, além do mais, tinha capacidade para 20.000 expectadores. Já na inauguração, todos esses lugares foram ocupados pela torcida cruzeirista, que fez uma grande festa diante da vitória sobre o tricolor paulista.
O Cruzeiro entre as décadas de 1940 e 1970: mais títulos e a contratação de um técnico húngaro
Entre as décadas de 1940 e 1960, o clube voltou a conquistar alguns títulos de menor importância, como torneios e taças disputadas em âmbito local e estadual. Em 1943, por exemplo, ganhou o Torneio Início, a Taça da Cidade e o Campeonato Extra de Porto Alegre. Quatro anos depois, ou seja, em 1947, voltou a ser campeão da Taça Cidade de Porto Alegre, enquanto nos anos de 1951 e 1962 conquistou, novamente, o Torneio Início da capital gaúcha.
Na temporada de 1945, contratou o técnico húngaro Emerich Hirchl, que havia treinado uma série de clubes argentinos, tais como Gimnasia y Esgrima, River Plate, Rosário Central, San Lorenzo e Banfield. Foi o primeiro treinador estrangeiro a dirigir times do futebol profissional argentino. No Rio Grande do Sul, também entrou para a história junto com o Cruzeiro, que tornou-se o primeiro clube gaúcho a contratar um técnico estrangeiro. Ao desembarcar em Porto Alegre, o treinador húngaro trouxe para o Estrelado uma famosa dupla de atacantes italianos, Flamini e Lombardini, que já haviam atuado pela seleção nacional e por clubes como Lazio, bem como outros importantes times argentinos.
A inédita excursão entre os anos de 1953-1954
O pioneirismo da equipe cruzeirista se fez presente em outros momentos da história do clube e do futebol gaúcho. Em 1917, por exemplo, propôs a regulamentação da entrada de jogadores estrangeiros nos clubes gaúchos, algo que já acontecia em São Paulo e Buenos Aires. Esse espírito pioneiro se fez sentir também entre 1953-1954, quando viajou para Europa, Ásia e Oriente Médio, tornando-se o primeiro clube gaúcho a excursionar para jogar fora do país.
O ponto alto dessa excursão, sem dúvida, foi o empate contra o poderoso Real Madrid de Di Stéfano, no estádio Chamartín, atual Santiago Bernabéu. Mas o Cruzeiro também enfrentou outros grandes clubes do futebol europeu, tais como Lazio, Torino, Toulousse, Espanhol, Galatasaray, Besiktas e Fenerbahçe, entre outros grandes times. No geral, o saldo da viajem foi bastante positivo. Em 15 jogos, a equipe cruzeirista venceu sete, empatou quatro e perdeu as outras quatro partidas, marcou 28 gols e sofreu 20.
Uma nova excursão e a inédita conquista intercontinental
Em 1960, o Cruzeiro fez uma nova excursão, dessa vez apenas pela Europa. Ao longo da viajem, enfrentou vários clubes da Europa Ocidental, Escandinávia e Leste Europeu. Dentre os principais equipes, merecem destaque o Sevilha, o Espanhol, o Anderlecht e as seleções da Checoslováquia, Bulgária e Dinamarca (equipe Olímpica). Novamente, voltou com resultados bastante positivos. Em 24 partidas, venceu onze, empatou seis e perdeu sete, marcando 39 gols e sofrendo 35.
Mais uma vez, o Estrelado fez história. Em terras europeias, depois de enfrentar vários times alemães, conquistou o Torneio de Páscoa de Berlim (um importante campeonato na época), transformando-se no primeiro clube gaúcho a ganhar um título intercontinental. Em 1961, numa nova excursão à Argentina, o Cruzeiro conquistou a primeira edição do Torneio de Páscoa de Mar del Plata, seu segundo título internacional.
Da decadência a volta por cima: a desativação e o retorno a elite do futebol gaúcho
No final da década de 1960, a equipe cruzeirista começou a entrar em crise e iniciou um período de franca decadência. O clube que incomodava os grandes durante seus primeiros 50 anos de existência, quando chegou a ser considerado a terceira força do futebol gaúcho, começava a se desfazer e com o tempo passou a não existir mais. O Estádio da Montanha, motivo de orgulho da torcida, foi vendido e transformou-se em um cemitério. O clube até chegou a construir um novo estádio, em 1977, batizando-o de Estrelão. Seu último grande suspiro, no entanto, foi o título da Copa Taça Governador do Estado, conquistada em 1970.
Em 1979, o Cruzeiro acabou sendo desativado, voltando ao futebol somente em 1991, ou seja, depois de mais de 20 anos. De lá pra cá, o Estrelado passou por maus bocados, chegando a disputar, inclusive, a 3° divisão do Campeonato Gaúcho. A partir dos anos 2000, o alvi-azul passou a investir na base e, como resultado, conquistou o título da Série B do estadual, conseguindo o acesso para elite do futebol gaúcho.
Recentemente, o clube negociou novamente o seu estádio, o Estrelão, construído em 1977. Em troca, receberá um novo e moderno estádio, no formato dessas novas arenas, em Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre. De volta a primeira divisão, e com um novo estádio, que será inaugurado em 2014, o centenário Cruzeiro espera reviver as glórias e conquistas do passado.
Taça do Campeonato Gaúcho de 1929. Maior
conquista da história do Estrelado.
Nessa época, o Campeonato Gaúcho era disputado por regiões. Somente o campeão da cidade de Porto Alegre e os clubes representantes de outras regiões do estado podiam disputar o estadual. Essa fórmula de disputa durou até 1960, no ano seguinte, a competição passou a ser disputada pelos principais times da capital e do interior. Isso valoriza ainda mais os títulos conquistados pela equipe cruzeirista. Numa época em que não existiam competições nacionais, o campeonato da capital e o estadual tinha um peso e uma importância muito grande.
O Estádio da Montanha
Em 1941, o Estrelado da capital gaúcha inaugurou o Estádio da Montanha, um dos mais completos e modernos do país. O primeiro estádio do clube havia sido a Vila Cruzeira, onde jogou até 1920. Em seguida, mudou-se para o Caminho do Meio, uma nova casa, onde permaneceu mandando seus jogos por mais de 18 anos.
Convite de inauguração do Estádio da Montanha.

Fachada da entrada das sociais do antigo Estádio da Montanha.

Fachada da entrada das sociais do antigo Estádio da Montanha.
Na inauguração do novo estádio, no dia 6 de março de 1941, o Cruzeiro enfrentou o São Paulo em uma partida amistosa, vencida pelo alvi-azul por 1 x 0, gol de Gervásio, que assinalou o primeiro gol da Colina Melancólica, nome pelo qual também ficou conhecido o campo do Estrelado. O estádio foi o primeiro do Rio Grande do Sul com túnel de acesso do vestiário para o gramado, além do mais, tinha capacidade para 20.000 expectadores. Já na inauguração, todos esses lugares foram ocupados pela torcida cruzeirista, que fez uma grande festa diante da vitória sobre o tricolor paulista.
Cruzeiro 1 x 0 São Paulo - Lance do jogo amistoso, que inaugurou
o Estádio da Montanha, em 1941.
Torcedores cruzeirista lotam as sociais do Estádio da Montanha
na inauguração contra o São Paulo.
Campo de jogo do Estádio da Montanha, batizada também de
Colina Melancólica pelos torcedores.
Campo de jogo do Estádio da Montanha, batizada também de
Colina Melancólica pelos torcedores.
O Cruzeiro entre as décadas de 1940 e 1970: mais títulos e a contratação de um técnico húngaro
Entre as décadas de 1940 e 1960, o clube voltou a conquistar alguns títulos de menor importância, como torneios e taças disputadas em âmbito local e estadual. Em 1943, por exemplo, ganhou o Torneio Início, a Taça da Cidade e o Campeonato Extra de Porto Alegre. Quatro anos depois, ou seja, em 1947, voltou a ser campeão da Taça Cidade de Porto Alegre, enquanto nos anos de 1951 e 1962 conquistou, novamente, o Torneio Início da capital gaúcha.
Equipe do Cruzeiro do final da década de 1940.
Time do Cruzeiro de 1954 - Em pé: Valdão, Laerte Terceiro, Dioli,
Danton, Laerte Segundo e Leo. Agachados: Rubens Hoffmeister,
Nardo, Orcelli, Casquinha e Jarico.
Na temporada de 1945, contratou o técnico húngaro Emerich Hirchl, que havia treinado uma série de clubes argentinos, tais como Gimnasia y Esgrima, River Plate, Rosário Central, San Lorenzo e Banfield. Foi o primeiro treinador estrangeiro a dirigir times do futebol profissional argentino. No Rio Grande do Sul, também entrou para a história junto com o Cruzeiro, que tornou-se o primeiro clube gaúcho a contratar um técnico estrangeiro. Ao desembarcar em Porto Alegre, o treinador húngaro trouxe para o Estrelado uma famosa dupla de atacantes italianos, Flamini e Lombardini, que já haviam atuado pela seleção nacional e por clubes como Lazio, bem como outros importantes times argentinos.
A inédita excursão entre os anos de 1953-1954
O pioneirismo da equipe cruzeirista se fez presente em outros momentos da história do clube e do futebol gaúcho. Em 1917, por exemplo, propôs a regulamentação da entrada de jogadores estrangeiros nos clubes gaúchos, algo que já acontecia em São Paulo e Buenos Aires. Esse espírito pioneiro se fez sentir também entre 1953-1954, quando viajou para Europa, Ásia e Oriente Médio, tornando-se o primeiro clube gaúcho a excursionar para jogar fora do país.
Equipe cruzeirista posando para fotografia no navio durante a
pioneira viajem de excursão de 1953.
Time do Cruzeiro que empatou com o poderoso Real Madrid
de Di Stéfano.
O ponto alto dessa excursão, sem dúvida, foi o empate contra o poderoso Real Madrid de Di Stéfano, no estádio Chamartín, atual Santiago Bernabéu. Mas o Cruzeiro também enfrentou outros grandes clubes do futebol europeu, tais como Lazio, Torino, Toulousse, Espanhol, Galatasaray, Besiktas e Fenerbahçe, entre outros grandes times. No geral, o saldo da viajem foi bastante positivo. Em 15 jogos, a equipe cruzeirista venceu sete, empatou quatro e perdeu as outras quatro partidas, marcou 28 gols e sofreu 20.
Real Madrid 0 x 0 Cruzeiro - Lance do jogo que garantiu um
resultado histórico para o Estrelado.
Jogadores do Cruzeiro e da seleção israelense posando para fotografia
antes da partida. O Estrelado foi o primeiro time brasileiro
a jogar no Estado de Israel, em janeiro de 1954.
Recepção calorosa, marcada por uma grande festa, no
retorno da excursão no início de 1954.
Em 1960, o Cruzeiro fez uma nova excursão, dessa vez apenas pela Europa. Ao longo da viajem, enfrentou vários clubes da Europa Ocidental, Escandinávia e Leste Europeu. Dentre os principais equipes, merecem destaque o Sevilha, o Espanhol, o Anderlecht e as seleções da Checoslováquia, Bulgária e Dinamarca (equipe Olímpica). Novamente, voltou com resultados bastante positivos. Em 24 partidas, venceu onze, empatou seis e perdeu sete, marcando 39 gols e sofrendo 35.
Equipe cruzeirista de malas prontas para retornar à Europa, em 1960.
Time do Cruzeiro que viajou para Europa em 1960. A foto foi tirada antes
da partida contra o Figueres. Os donos da casa jogaram reforçados por
Joel, Didi, Evaristo de Macedo e Vavá. Os quatro grandes jogadores
brasileiros jogavam na Espanha e também aparecem na foto.
Os destaques da conquista inédita em terras europeias.
Da decadência a volta por cima: a desativação e o retorno a elite do futebol gaúcho
No final da década de 1960, a equipe cruzeirista começou a entrar em crise e iniciou um período de franca decadência. O clube que incomodava os grandes durante seus primeiros 50 anos de existência, quando chegou a ser considerado a terceira força do futebol gaúcho, começava a se desfazer e com o tempo passou a não existir mais. O Estádio da Montanha, motivo de orgulho da torcida, foi vendido e transformou-se em um cemitério. O clube até chegou a construir um novo estádio, em 1977, batizando-o de Estrelão. Seu último grande suspiro, no entanto, foi o título da Copa Taça Governador do Estado, conquistada em 1970.
Cruzeiro 0 x 0 Pelotas - Inauguração do
novo estádio Estrelão, em abril de 1977.
Time campeão da Taça Governador do Estado em 1970. Em pé:
Henrique, Miguel, Ortunho, Bido e Arceu. Agachados:
Arlém, Arnaldo, Joãozinho, Pio e Laoni.
Mais uma foto do Cruzeiro de 1970, campeão da
Taça Governador do Estado.
Em 1979, o Cruzeiro acabou sendo desativado, voltando ao futebol somente em 1991, ou seja, depois de mais de 20 anos. De lá pra cá, o Estrelado passou por maus bocados, chegando a disputar, inclusive, a 3° divisão do Campeonato Gaúcho. A partir dos anos 2000, o alvi-azul passou a investir na base e, como resultado, conquistou o título da Série B do estadual, conseguindo o acesso para elite do futebol gaúcho.
Mascote do time do Cruzeiro. Batizado carinhosamente de Leão
da Montanha, em alusão ao antigo estádio do clube.
Recentemente, o clube negociou novamente o seu estádio, o Estrelão, construído em 1977. Em troca, receberá um novo e moderno estádio, no formato dessas novas arenas, em Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre. De volta a primeira divisão, e com um novo estádio, que será inaugurado em 2014, o centenário Cruzeiro espera reviver as glórias e conquistas do passado.
Hino do E. C. Cruzeiro - Letra e música do violinista e compositor gaúcho
Túlio Piva, que se dedicou ao samba, ao choro e a música popular.
Parabéns pelo belo histórico do Cruzeirinho. Moro em Cachoeirinha e conhecia um pouco da história do estrelado. Mudando de cidade, espero que isso fique cada vez mais vivo. Obrigado.
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